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    Home»Meio Ambiente»Serra do Espinhaço, lar das tribos pré-históricas de Minas
    Meio Ambiente

    Serra do Espinhaço, lar das tribos pré-históricas de Minas

    30/04/2018Updated:30/04/2018Nenhum comentário5 Minutos de leitura48 Visualizações
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    Buenópolis, Diamantina e Joaquim Felício – Da região de Lagoa Santa, os povos primitivos seguiam pelo Vale do Rio das Velhas rastreando veados e tatus. A partir do semiárido baiano, dúzias de nômades determinados desbravavam a caatinga vasculhando sustento entre espinhos. Tribos do sertão norte-mineiro desciam coletando frutas, cocos e raízes. Serpenteando o Rio São Francisco e seus afluentes, clãs de pescadores e coletores desafiavam os morros, certos de conquistar fartura.

     
    Há mais de 11 mil anos, esse mosaico de grupos pré-históricos, que está entre os primeiros americanos e compõe os mais antigos ancestrais dos mineiros modernos, convergiu para a porção meridional (central) da Serra do Espinhaço, entre Diamantina e Buenópolis. Numa busca sazonal por comida, os grupos deixaram, entre abrigos, territórios de caça e rituais, a maior sucessão de sítios arqueológicos de Minas Gerais – um dos mais concentrados do Brasil – segundo o Ministério Público de Minas Gerais e os institutos do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha).
     
    São pelo menos 233 sítios federais num pequeno quadrante de 2,7 milhões de hectares nos municípios de Augusto de Lima, Buenópolis, Couto de Magalhães de Minas, Datas, Diamantina, Francisco Dumont, Gouveia, Lassance, Mendanha, Monjolos, Joaquim Felício, Santo Hipólito, Serro e Várzea da Palma. Mais do que montes de rochas cinzentas transformados em domínios pré-históricos, essa região pode ser encarada como uma síntese da formação do povo mineiro, preservando os vestígios dos indígenas, dos africanos e dos colonizadores ainda presentes em ruínas dos tempos da exploração de ouro e diamantes, nos séculos 18 e 19.
    Pintura rupestre no Parque Estadual da Serra do Cabral, nos municípios mineiros de Buenópolis e Joaquim Felício
    (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

    A concentração mais impressionante de sítios pré-históricos fica nas elevadas rochas da Serra do Cabral, entre Buenópolis e Joaquim Felício, no Norte de Minas. São 117 pontos, entre formas de abrigos sob pedras que são chamados de lapas, cavernas de quartzito e corredores rochosos. Nesses labirintos, quase sem trilhas demarcadas e dominados pela vegetação baixa, mas densa, de campos rupestres, se revezam gravuras de quatro tradições de pinturas rupestres. “Temos importantes estudos que mostram uma presença das tradições Planalto, Agreste, Montalvânia e São Francisco. Mas é importante que estudos continuem sendo feitos, pois há a expectativa de que muito ainda seja descoberto”, afirma o arqueólogo do Iphan Reginaldo Barcelos. Montanhas de Histórias: ‘Meu avô, meus tios e eu morávamos na caverna’ .

    Populações que ali chegavam vindo de várias regiões do estado e de fora também. Boa parte das inscrições está dentro do perímetro do Parque Estadual da Serra do Cabral, uma unidade de conservação com 22.500 hectares e altitudes que variam entre 900 e 1,3 mil metros de altitude. “Muita coisa ainda está para ser descoberta. Conseguimos isso com a relação com os povos da região, que nos mostram sítios que só eles conhecem. Nossa exploração da área de manejo também permite descobrir os sítios”, afirma o diretor de Unidades de Conservação Norte do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Jarbas Jorge de Alcântara.

    Sem um bom guia, chegar até as pinturas rupestres pode ser uma tarefa difícil. Algumas delas estão praticamente camufladas nos emaranhados de espinhos. O solo arenoso alterna grãos finos como farinha e outros mais grossos, de cristais brancos, uma das riquezas que foram extraídas por anos naqueles altos. Esse piso, no meio das trilhas, entre os paredões de pedras e a floresta, permite a conservação de vestígios animais que mostram por que os homens primitivos atravessavam às vezes centenas de quilômetros para ali chegar.

    Pico da Pedra Alta, no Parque Estadual da Serra do Cabral, nos municípios mineiros de Buenópolis e Joaquim Felício
    (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

    “Veja só. Uma pegada com três dedos grandes. É uma anta (Tapirus terrestris), animal em extinção, que temos em grande quantidade”, observa Jarbas ao lado de dois guarda-parques, que são da região e conhecem os animais da área. O trio ainda consegue identificar os rastros de outras antas, de um veado, de uma raposa e de seriemas. “Temos onças-pardas e pintadas aqui também”, afirma Alcântara.

    A Serra do Cabral é uma chapada. Aparenta ser um só monte compacto se erguendo sozinho da mata. Mas, de perto, se abre em um complexo de paredões e corredores altos de rocha escura. Na base de um dos mais íngremes mirantes, a chamada Pedra Alta (1.205 metros), riscos vermelhos mal percebidos a distância ganham, à proximidade, as formas de animais que eram rastreados e abatidos pelos homens primitivos.

    Região da Serra do Espinhaço guarda ricos sítios arqueológicos com lapas e pinturas rupestres
    (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

    O maior deles se assemelha a um veado-campeiro. Mas outros traços em amarelo, branco, azul e preto assumem formas de antas, tatus, pacas e bichos indecifráveis. O sítio arqueológico é chamado de Lapa da Pedra Alta e como tantos outros foi estudado e escavado por arqueólogos. Infelizmente, apenas uma amostra das peças pertencentes aos primeiros habitantes de Minas ainda se encontra no parque. São pontas de flechas e lâminas de pedras lascadas ou polidas, cerâmicas e materiais de pintura feita com a trituração de minerais e compostos de gordura e vegetais. A maioria dos artefatos foi levada para o Rio de Janeiro.

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