Municípios mineradores estudam alternativas para superar crise após tragédias

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Sem poder contar com a mineração, municípios atingidos pelo rompimento de barragens ou que vivem sob o risco de uma nova tragédia traçam um plano B para tentar salvar a própria economia. Correm atrás do prejuízo para buscar fontes alternativas de arrecadação e uma forma de garantir emprego para boa parte da população, que muitas vezes trabalha direta ou indiretamente para as mineradoras. 

Desde a tragédia em Brumadinho, em janeiro, nove unidades da Vale com barragens de alteamento a montante tiveram as atividades suspensas, além das minas de Timpobepa (Ouro Preto) e de Alegria (Mariana). Cerca de 40 milhões de toneladas de minério de ferro deixarão de ser extraídas ao ano, com prejuízos de R$ 12,12 bilhões, o que afeta diretamente a arrecadação dos municípios. Sem falar no efeito cascata, com desemprego, sumiço do dinheiro circulando na cidade e o baque sobre o comércio e serviços.

Foi da pior maneira possível que Mariana, na região Central de Minas, descobriu o peso da mineração – e da falta dela. O município, cuja receita dependia 80% da atividade, decretou calamidade financeira na última segunda-feira, após acumular perdas de aproximadamente R$ 100 milhões desde o rompimento da Barragem da mina de Fundão, da Vale, em 2015. 

Restou ao prefeito Duarte Júnior (PPS) buscar a diversificação econômica. “Estamos trazendo uma empresa têxtil e um dos maiores produtores de ovos de codorna do mundo. Não posso dizer ainda quais são, porque estamos terminando de acertar os detalhes, mas são duas empresas que vão gerar cerca de 800 empregos”, disse.

Em Brumadinho, que tinha 40% do orçamento total e 80% dos royalties dependentes da Vale, o turismo parece ser o caminho mais viável para a retomada econômica. Conforme o prefeito da cidade, Nenen da Asa (PV), as autoridades e lideranças locais estudam maneiras de incentivar as visitas ao museu de arte contemporânea Inhotim e de fomentar passeios ecológicos na região.

Considerada o “berço” da Vale, Itabira também se movimenta para diversificar a arrecadação. De acordo com a assessoria de comunicação do município, em abril a cidade vai receber uma comitiva de investidores chineses interessados na implantação de um parque tecnológico e de um aeroporto industrial de carga. Os investimentos internacionais, no entanto, ainda dependem de aprovação do governo federal.

Outra frente de atuação é a tentativa de se consolidar como “cidade universitária”. Atualmente, o campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) em Itabira conta com cerca de 2 mil estudantes. A meta para os próximos anos é chegar a 10 mil. Além disso, a prefeitura trabalha para atrair faculdades particulares.

Autora do levantamento que aponta os prejuízos causados pela interrupção nas atividades da Vale, a Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig) pretende iniciar nas próximas semanas um novo estudo para tentar identificar o potencial de cada município para diversificar a economia. Agronegócio e turismo ecológico são algumas das saídas possíveis, além da mudança de setor produtivo. 

Em Macacos, medo de rompimento de barragem afasta turistas

Boletos atrasados, demissão de funcionários, pousadas vazias e até fechamento de um restaurante. Este é o cenário em São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima conhecido como Macacos, 39 dias após uma empresa de auditoria se negar a atestar a estabilidade da barragem B3/B4, da Vale, na Mina Mar Azul.

Sem garantias de segurança da estrutura, que foi alçada ao nível 2 de risco de ruptura, 305 pessoas foram retiradas de casas e removidas para hotéis em 16 de fevereiro. Os acessos às pousadas e restaurantes do distrito também foram dificultados com a interdição da estrada Fazenda do Engenho. A ação, segundo comerciantes, resultou em um afastamento de turistas.

Para tentar trazer de volta os visitantes a São Sebastião das Águas Claras, comerciantes negociam com a Vale a criação de uma campanha publicitária. A peça será paga pela mineradora, mas produzida pelos moradores do distrito, convocando os turistas para retomarem as visitas ao vilarejo. Ainda não há prazo para que o acordo seja finalizado. 

Enquanto a situação se arrasta, o chef de cozinha Rafael Tocchetto fechou o restaurante Campagne, mantido por ele há dois anos no distrito. Seis funcionários foram demitidos. Outros quatro, que estavam em processo de contratação, viram a chance de uma colocação no mercado de trabalho indo por água abaixo. 

O principal acesso ao restaurante era pela via que foi interditada por estar dentro da chamada Zona de Autossalvamento (ZAS) – área que seria atingida pelos rejeitos em caso de colapso. “Eu já gastei R$ 40 mil para quitar dívidas com fornecedores e pagando o acerto dos meus funcionários. Fora o faturamento que eu perdi nesses dias”, disse.

Sem perspectiva de mudança no quadro, Tocchetto já procura outro endereço, fora do distrito, para reabrir o estabelecimento. “Eu não vou abrir meu restaurante enquanto tiver barragem com risco de rompimento me ameaçando”, desabafou. 

Situação semelhante à do chef de cozinha é percebida em pousadas do distrito. Em uma época do ano em que, normalmente, haveria 100% de ocupação devido aos feriados do Carnaval e da Semana Santa, as estalagens estão com movimento abaixo da média. “O movimento caiu muito. Não está chegando a 40% da ocupação”, explica Guilherme Pablo, gerente da Pousada Vilarejo Plus.

Mesmo distante da Zona de Autossalvamento, a hospedagem ainda não conseguiu se recuperar depois do afastamento dos turistas. Antes do aviso de evacuação, a duas semanas do Carnaval, 100% dos quartos estavam ocupados, mas apenas 5% dos clientes mantiveram a reserva. “Na Semana Santa estamos fazendo promoções, abaixando o preço, mas ainda assim só 30% dos quartos foram reservados”, conta o administrador, que já demitiu dois funcionários.

Uma das mais tradicionais de Macacos, a Pousada do Seu João também está à míngua. Segundo o gerente Maurício Rocha, a arrecadação caiu 80% desde a elevação de nível no risco ruptura da estrutura da Vale. O acesso mais fácil à estalagem é pela Estrada Fazenda do Engenho. “As pessoas não podem apedrejar nossa região. Nós não temos culpa dessa situação”, lamenta. 

Marcelo Sant’ana, chefe da Defesa Civil de Nova Lima, informou que não há prazo para a liberação da estrada. A reportagem questionou a Vale se há alguma assistência aos comerciantes, mas a empresa não se posicionou até o fechamento desta edição. 

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