Arqueólogos identificam fragmentos de peças do século 19 em obra do Projeto Tietê no Centro de SP

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Foto: reprodução

Por se tratar de uma obra de grande porte em espaços públicos, o consórcio que faz o trabalho precisa do licenciamento ambiental concedido por órgãos competentes, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que recomendou o acompanhamento de arqueólogos na obra.

“Tudo que está abaixo do solo pertence à União, é patrimônio de todos e não pode ser degradado. Então, toda vez que um empreendimento de grande porte vai afetar o solo, vários estudos precisam ser feitos no local para a concessão do licenciamento ambiental e a liberação da obra”, explica Nathalia Rodrigues, que compõe a equipe de arqueólogos.

A etapa atual da obra da Sabesp visa a construção de um grande coletor no subsolo da região do Bom Retiro, em formato de Y, com 15 km de extensão, que levará o esgoto para uma estação de tratamento em Barueri. As escavações percorrem a Avenida do Estado, depois de ser concluída no Vale do Anhangabaú e antes de seguir para a região da Luz.

A arqueóloga Nathalia Rodrigues, da JGP Gestão Ambiental, contou que a equipe encontrou cerca de 2 mil fragmentos desde o início desta etapa da obra, todos pertencentes ao período entre meados do século 19 e meados do século 20.

O que foi encontrado

Foram encontradas peças de ferro, louças, garrafas e materiais de construção antigos, como azulejos e tijolos de barro.

“Encontramos garrafas de bebidas e remédios. Um dos recipientes armazenou uma espécie de elixir da mulher, que pretendia tratar doenças específicas”, conta Nathalia Rodrigues. “Também identificamos objetos usados na alimentação, como louças e cerâmicas. Eles apresentam uma decoração muito específica, com muitos desenhos, alguns deles em ouro”, continua.

Como se identifica a idade

A arqueóloga explica que um indício de que os materiais localizados pertencem ao final do século 19 é o fato de terem sido localizados diretamente sobre a terra.

“Alguns materiais são de pelo menos 100 anos atrás, pois foram encontrados às margens de rios. São, portanto, de época em que não existia política sanitarista, lixeiros e aterros sanitários, e as pessoas tinham o hábito de jogar lixo no próprio quintal, cobrindo com terra, ou em beiras de rios, como ocorre até hoje em regiões periféricas”, explica.

Segundo ela, a análise do formato dos materiais, do contexto em que foram encontrados e até os desenhos neles também ajudam a estimar a data dos objetos.

“Alguns materiais são melhores indicadores cronológicos do que outros. Louças são bons indicadores – quando estão pintadas à mão sabemos que se trata do início do século 19. Se as imagens nas peças são feitas por transferência de imagem, como essas de hoje, sabemos que são de décadas mais tarde. Se têm selos, facilita, pois podemos pesquisar de quando os símbolos nos catálogos. Se o objeto tem plástico, já sei que é de meados do século 20”, exemplifica.

O que é feito com esse material?

O material encontrado é coletado e armazenado em saquinhos com uma ficha que descreve o objeto, chamada de “caracterização de matéria”. Ele segue para a área de curadoria, onde será tratado, limpo, fotografado, analisado, protocolado no Iphan, onde recebe um número de tombo e, por fim, encaminhado para a instituição de guarda.

As instituições de guarda são os locais que abrigam os objetos identificados, e geralmente são universidades, como a Unesp e a Unicamp, museus, como o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e órgãos públicos, como o Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo.

Importância

A arqueóloga explica que a identificação dos objetos complementa o estudo por meio dos livros.

“É sempre muito emocionante encontrar um material. Não paro de me surpreender. Os objetos arqueológicos nos lembram que inúmeras pessoas passaram por aqui, viveram por aqui, tiveram histórias por aqui. E é interessante estudar essas histórias, adquirir esse saber do cotidiano que não consta nos documentos oficiais”, afirma Rodrigues.

“Já os vidros de remédios revelam que se trata de uma época em que não havia farmácias, mas estabelecimentos diferentes, conhecidos como boticários, onde as pessoas buscavam misturas à base de ervas para se tratar”, avalia Rodrigues. “Nosso trabalho revela que remédios as pessoas usavam, o que elas comiam, o que bebiam, e essas informações ajudam a contar a cultura paulista”, conclui.

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