Glaucius Detoffol Bragança – Apropriação cultural? – Zé Geraldo, Drummond, Hermes e Schopenhauer

Glaucius Detoffol Bragança, Advogado, Pós Graduado em: Direito Processual e Material do Trabalho, Direito Constitucional, Direito Tributário e Planejamento Tributário. Sócio-Gestor de Guerra e Bragança Sociedade de Advogados em Itabira – MG

Os jardins da casa-grande
As trancas ficando pra trás
Hoje, depois de algum tempo
Eu sei que ficou muito mais
Ficou um sentido de vida
Uma filosofia, uma razão de ser
Que a idade impediu de ser vista
E que hoje é a própria razão de viver
 

Antes de falarmos sobre o que é apropriação cultural, primeiro devemos entender o que seja “apropriação” e o que seja “cultura”.

Apropriar

Resumidamente: apropriar-se quer dizer apoderar-se de algo que não lhe pertence, tomar posse, tornar particular, tirar de alguém algo dela, e vai por aí…

Cultura 

Em síntese: são formas de conduta, artefatos, crenças, elementos morais, conhecimento, ideias. Inicialmente era observada de acordo com determinado povo ou circunscrição territorial.

Diante deste cenário, podemos entender que a “apropriação cultural” se revelaria como o ato de uma pessoa OU de um grupo de pessoas consubstanciado em tomar para si elementos identificáveis em outro(s) grupo(s).

Recentemente, pessoas que se identificam com determinados grupos têm apresentado atritos com outras pessoas pelo simples fato de acreditarem que aqueles têm “se apropriado” de SUA “cultura”. Mais um péssimo fenômeno da sociedade moderna.

Bom… as perguntas que não querem calar são:

  1. A quem pertence a “cultura”?
  2. Onde está a sua privação?

O primeiro ponto a esclarecer é: ninguém pode reclamar propriedade sobre aquilo que não é e nem nunca foi seu. E mesmo que a “cultura” seja tida como um bem coletivo: quem concedeu autorização a você para exigir determinada conduta frente a outro ser humano? Quem disse que dentre o coletivo proprietário não está quem você ofende?

O segundo ponto a esclarecer é: o termo “apropriação” deixa claro que se trata de retirada de algo ou alguém de um titular para uso ou convívio próprio. Ou seja, existe uma privação ao ofendido. Por assim ser, onde está a sua privação? O fato d’eu usar um Kilt (saia masculina) não impede que você, descendente Escocês use essa vestimenta também. O fato de uma pessoa usar turbante, não significa que os filhos, netos, bisnetos de europeus, asiáticos, africanos ou centro americanos estejam proibidos de usar.

Acredito que esse fenômeno da sociedade moderna tenha sido relatado por Schopenhauer. De nome difícil, esse filósofo alemão estudou bastante o comportamento humano nos idos de 1820 em diante. Chegou a diversas conclusões, dentre elas: O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. Quer comportamento mais tacanho que impor ao outro ser humano um comportamento pelo seu simples prazer / bem-estar?

Não podemos deixar de lado que a cultura de raiz… aquela vinculada a determinado povo… de determinado lugar… deixou de se estabelecer única e exclusivamente naquele ponto com o passar do tempo. Tal fato se iniciou a partir do momento em que o Homem passou a vagar pela Terra em busca de alimentos e de condições melhores de vida. Inclusive, por exemplo, neste momento nasce um novo tipo de “cultura”: nomadismo. Coisa antiga… desde a era Paleolítica… entre 3 milhões e 10.000 anos antes de Cristo.

Por onde o ser humano passar ele deixa rastros e influencia pessoas e bens com seus atos. Drummond não disse atoa: de tudo fica um pouco. E mais! De tudo ficou um pouco: de mim; de ti; de Abelardo. 

Quem não possui um conhecido que se mudou de rua,  bairro, cidade, estado ou país? Tenha certeza que ele (onde estiver) leva a “cultura” consigo. E quando retornar trará uma nova “cultura” consigo. 

Como bem propôs Hermes de Aquino: eu sou nuvem passageira. Todos somos. Não adianta escrever meu nome numa pedra. Pois essa pedra em pó vai se transformar. Você não vê que a vida corre contra o tempo? Sou um castelo de areia na beira do mar.

Acredito que o maior propósito do ser humano seja praticar bons atos de modo que seja bem lembrado quando partir para a eternidade. Com todo respeito a quem pense diferente: o fato de adotar determinado comportamento ou peça de roupa, ou estilo musical, nada mais significa que uma saudação àqueles que construíram a história.

Devemos combater paixões e intransigências. O tempo do Ser Humano pequeno já passou. Podemos nos comportar de forma melhor. Sempre melhor que ontem e pior que amanhã. A tolerância e o apoio mútuo são o caminho para cidadania. Uma sociedade grande se faz com quem se importa verdadeiramente com o próximo. Lembre-se: Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.

Fale com o colunista: glaucius@guerraebraganca.com.br

Leia Também!

Glaucius Detoffol Bragança – A dependência das Associações com o Poder Público – Referência: Engenheiros do Hawaii 

Tô sempre escrevendo cartas que nunca vou mandar / pra amores secretos, revistas semanais e …