O retorno dos analógicos

Sobretudo consumidores abaixo dos 35 anos, que cresceram na era digital, mostram grande interesse pelo que é ou ao menos parece ser antigo – uma nova e rentável forma de fidelidade a marcas e produtos

O fã da tecnologia Brandon Salt está profundamente entusiasmado: em seu canal do Youtube, ele testa algo que soa como uma máquina de escrever. “Oh, meu Deus, que coisa linda que ela é!” Na realidade, contudo, o que os seus dedos estão operando é um teclado preto fosco com teclas vermelhas, conectado sem cabo ao computador, por bluetooth.

quem está por trás desse híbrido de teclado moderno e velha máquina de datilografia é a empresa nova-iorquina Lofree, que alia a tecnologia mais moderna a design, som e sensação tátil de artefatos há muito obsoletos.

O produto ainda não está no mercado, mas usuários da plataforma de vídeo, como Salt, têm a oportunidade de testá-lo e, assim, promovê-lo antes do lançamento. E ele nem precisa se esforçar muito, pois outros internautas também estão eufóricos: para a primeira produção, a Lofree já angariou mais de 500 mil dólares de quase 6 mil investidores, na plataforma de crowd-funding  Indiegogo. E esse número cresce de dia para dia.

Vingança dos analógicos

A startup de Nova York navega uma onda altamente lucrativa no momento: a moda retrô ou nostálgica. As companhias oferecem ou novos produtos reproduzindo o design dos velhos tempos, ou artigos originários, de fato, de décadas passadas, sejam discos de vinil e câmeras polaroide, sejam cadernos de notas ou livros. O “analógico” nunca esteve tão em voga: até mesmo a gigante do comércio eletrônico Amazon vai abrir uma livraria de tijolo e cimento em Manhattan.

Os números comprovam a força da tendência: em 2016, o faturamento da famosa fabricante italiana de agendas Moleskine cresceu 16%. A venda de discos analógicos já vem crescendo há nove anos seguidos, tendo quebrado em 2015 o recorde dos últimos 25 anos.

Em seu livro A vingança dos analógicos, o jornalista canadense David Sax explica que “os impulsionadores dessa tendência são adolescentes e jovens adultos”. Como aponta a pesquisa de mercado da ICM Unlimited, quase a metade dos compradores de LPs em 2016 contava 35 anos ou menos. Para eles, as velhas tecnologias são, por assim dizer, a novidade.

Justamente por esse motivo, porém, um adolescente não tem como sentir nostalgia ao escutar um toca-discos. E muitos consumidores mais maduros são felizes de ter o seu leitor de livros digitais, com recursos como aumentar o tamanho das letras e outros confortos.

A especialista em consumo Daphne Kasriel-Alexander, do instituto Euromonitor International, tenta explicar esse comportamento complexo. “Ao consumir, você está expressando sua identidade”, e o antigo é o diferente: num mundo digitalizado, o analógico é que é o extraordinário e fascinante. Os jovens querem ser individuais, destacar-se em meio ao mainstream, em vez de nadar com a onda. E uma máquina de escrever é, sem sombra de dúvida, um adereço chamativo.

Emoção e produtividade

Segundo David Sax, porém, existe ainda um outro motivo, que tem mais a ver com a própria percepção sensorial do que com o que se mostra para o exterior: numa dimensão do virtual e das touch-screens, os consumidores querem novamente se cercar de produtos para tocar e cheirar.

“No mundo digital, só se tem duas dimensões, e entre elas se pode deslizar (scroll)”. Numa loja de discos, em comparação, os vinis estão lá para se pegar, cheirar, pode-se falar com as pessoas. “Comprar e ouvir ou ler um disco ou livro é um ato emocional”, analisa o autor.

A esse aspecto emotivo ele acrescenta outro, bem palpável: produtividade. No cosmos digital há muitas formas de distração à espreita. No celular, mensagens de Whatsapp de todo tipo pipocam a cada poucos minutos, numa hora em que se quer trabalhar ou ler concentrado.

No mundo profissional estão em moda aplicativos com nomes como SelfControl ou Freedom – autocontrole, liberdade. Eles prometem ajudar a combater a própria compulsão de se deixar distrair por Facebook e companhia, colocando os sites, por assim dizer, fora do alcance do usuário.

A empresa suíça Punkt partiu logo para produzir um celular cujo teclado e visor minimalista só permitem telefonar e escrever uma ou outra mensagem. O antirrevolucionário dispositivo vende especialmente bem no berço de todas as tecnologias digitais, o Vale do Silício, na Califórnia.

Fundo no coração, mais fundo na carteira

Aparentemente, os que mais querem retornar à simplicidade são aqueles abaixo dos 35 anos, os digital natives, que já cresceram na era digital, e que compõem o principal grupo de consumidores do planeta, observa Sax.

Só os Estados Unidos contam 80 milhões dos assim chamados millenials, os nascidos entre 1980 e 2000. Ou seja, um terço da população total, com um poder de compra anual de 200 bilhões de dólares, do qual toda empresa comercial quer sua fatia.

Ao mesmo tempo, porém, nunca foi tão difícil conseguir a fidelidade da clientela jovem para determinadas marcas. “Desde a recessão, os jovens não são mais tão fixados no mercado e fiéis a ele”, diagnostica Kasriel-Alexander. É uma geração que perdeu a confiança no empresariado.

Assim, a indústria retrô e da nostalgia aposta em cultivar o desejo por produtos antigos. Dessa maneira, pretende formar um relação nova e talvez mais profunda com seus clientes – os quais, em contrapartida, estarão dispostos a ir mais fundo nas próprias carteiras. (Deutsche Welle)

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