Pesquisadores e MP buscam cajado de Amós, em Congonhas

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Congonhas – Os brasileiros vão lembrar, em 2014, os 200 anos da morte do patrono das artes na América Latina e considerado o mestre do barroco: Antonio Francisco Lisboa (1738–1814), o Aleijadinho. Há uma série de eventos programados a partir do dia 18 que vão se estender por um ano, destacando a vida do mineiro de Ouro Preto e, principalmente, sua obra marcante presente em várias cidades das Gerais. Em Congonhas, na Região Central, onde estão os 12 profetas esculpidos entre 1800 e 1805 para o Santuário Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, reconhecido como Patrimônio Cultural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o bicentenário será ótima oportunidade para jogar mais luz sobre o conjunto assinado pelo artista, aprofundar estudos iconográficos e responder velhas perguntas. Uma delas intriga a comunidade: onde foi parar o cajado de Amós?, a escultura que fica bem na ponta, à esquerda de quem olha para a igreja. O Ministério Público de Minas Gerais, que faz um levantamento sobre furtos históricos, investiga o sumiço da peça.
Uma fotografia tirada possivelmente entre 1920 e 1930, portanto anterior ao tombamento do acervo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), datado de 1938, mostra Amós com um cajado. Pesquisador do tema e diretor de Patrimônio da Prefeitura de Congonhas, o escultor Luciomar Sebastião de Jesus conta que a peça desaparecida há décadas deveria ser de ferro. “O apoio que aparece no retrato é de madeira. Um fotógrafo e pesquisador, certamente sabendo da história, substituiu o original, feito por Aleijadinho, e registrou a cena”, afirma Luciomar, apontando, na base da escultura de pedra-sabão, o orifício para encaixe do cajado de pastor. “A figura é inspirada nos pastores de Norte de Portugal, que Aleijadinho teria visto nos missais italianos com gravuras (livro com iluminuras) da Idade Média.

Alterações Atento a cada detalhe dos 12 profetas, que estuda há anos, Luciomar indica os dedos quebrados da mão direita de Amós – na esquerda, ele segura o filactério, ou rolo de pergaminho, com citações bíblicas, assim como os demais: Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oseias, Jonas, Joel, Naum, Abdias e Habacuc. “Os dedos estão danificados. Pode ser que tenham ficado assim ao retirarem o cajado de ferro. Acredito até que isso tenha ocorrido poucos anos depois de os profetas serem colocados no adro. Na época, era permitido subir nos muros e não havia segurança”, diz Luciomar, explicando que as alterações não têm relação com a polêmica degradação das obras devido a poluição ou ataque de líquens, fungos e outros microorganismos. “Foi resultado de vandalismo”, acredita.

Não apenas Amós mudou o visual em tanto tempo de exposição pública no adro da basílica. O profeta Daniel, que fica do lado esquerdo de quem olha para a igreja e próximo da porta principal, está sem o rebolo do barrete, ou o arremate arredondado da touca ou toucado. No seu arquivo, o diretor de patrimônio guarda outro registro, dessa vez feito em 1880 pelo fotógrafo franco-brasileiro Marc Ferrez (1843–1923). “Pelas pesquisas, descobrimos que o arremate foi retirado, depois foi colocado outro no lugar, como se pode ver pelo lugar do encaixe”, afirma. Nessa foto, Amós já está sem cajado original. A foto com o cajado de madeira foi descoberta na década de 1980, mas só agora ganha divulgação.

Turistas de todo o mundo não se cansam de admirar as peças que transformaram Congonhas na Terra dos Profetas e receberam reconhecimento mundial. Com a câmera digital em ação, o engenheiro agrônomo Luís Nogueira, de São Luís (MA), ouviu as explicações de Luciomar sobre o passado dos profetas e ficou ainda mais impressionado. “Aleijadinho tem que ser cada vez mais valorizado, pois tinha características muito próprias. Todos se referem ao italiano Leonardo da Vinci, mas, guardadas as devidas proporções, Antonio Francisco Lisboa não fica devendo nada a ele em talento”, comparou.

EMOÇÃO O casal Amélio Leão de Souza, turismólogo, e Guilá Maria Guimarães Leão, professora, ficou emocionado e está certo de que as histórias e curiosidade só aumentam o interesse: “Trata-se de um conjunto de grande beleza, fantástico. É isso que nos toca o coração”, disse Guilá.

Diante das esculturas, Luciomar revela que Jonas, Habacuc e Jeremias também sofreram intervenções ao longo do tempo. O nariz de Jeremias, que fica do lado direito, foi alterado, enquanto o punho de Jonas, escultura que teve cópia de segurança e réplica executadas em 2011 por iniciativa da Unesco, sofreu intervenção. “Basta comparar as dobras das mangas, que são bem diferentes. Certamente foi feito antes do tombamento federal”, aponta Luciomar. O profeta Habacuc sofreu interferências no antebraço direto, como indicam as diferenças nas vestes.

O casal Guilá e Amélio acha que curiosidades que cercam as obras de Aleijadinho contribuirão para aumentar interesse do público - Foto: reprodução

O casal Guilá e Amélio acha que curiosidades que cercam as obras de Aleijadinho contribuirão para aumentar interesse do público – Foto: reprodução

A coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil, Patrícia Reis, informa que a instituição não tem conhecimento sobre o cajado e desconhece a origem da fotografia. A professora de história da arquitetura da PUC Minas e pesquisadora da arte colonial Selma Miranda conta que a história do cajado é algo totalmente novo. “A gente tem a descrição dos relatos dos viajantes, mas nem todos os detalhes são mostrados”, afirma, certa de que o assunto merece estudos aprofundados.

Detalhes
» A fotografia feita por Marc Ferrez em 1880 mostra o profeta Daniel com o rebolo do barrete, que já desapareceu, como mostra o registro atual
» O nariz de Jeremias, profeta que fica do lado direito do adro, foi alterado
» O punho esquerdo de Jonas sofreu intervenção e tem a dobra da manga bem diferente da do outro lado
» O profeta Habacuc sofreu interferências no antebraço direto, como indicam as diferenças nas vestes

História das esculturas
– 1777: O empreiteiro e construtor Tomás da Maia Brito faz o adro do Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas, com o trabalho de escravos e homens livres. A obra dura 13 anos
– 1796: Depois que o adro estava pronto, Aleijadinho chega a Congonhas, fazendo, de início, as seis capelas que representam os passos da paixão de Cristo e as 64 figuras em cedro
– 1800 a 1805: Aleijadinho esculpe os 12 profetas para o adro do Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos. Ele e seus auxiliares receberam, pelo trabalho, 376 oitavas de ouro, três quartos e sete vinténs. Os pagamentos foram feitos em 1800, 1802 e 1805
– 1938: Conjunto do santuário é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
– Décadas de 1950 a 1970: São feitos moldes e réplicas dos profetas, mas a maioria se perde ou sofre degradação
Início da década de 1980: Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) promove limpeza mecânica dos profetas, com técnicas que não são mais usadas (escova de náilon, sabão de coco etc.)
– 1985: Conjunto do santuário é reconhecido como Patrimônio Cultural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco)
– 1996-1998: Numa parceria Brasil-Alemanha, entra em ação o Projeto Ideas para estudo de degradação dos materiais pétreos e edificações históricas. Começa a ser usado um biocida para limpar as esculturas e evitar lesões e ataque principalmente de líquens
– 2002-2003: Surge a polêmica de substituição dos profetas originais por réplicas, devido ao ataque de líquens, fungos e outros microorganismos. Em 2003, é lançado o projeto de construção do Museu do Barroco, que, com o tempo, se tornou Memorial Congonhas/Centro de Referência do Barroco e Estudo da Pedra
– 2011: Com a chancela da Unesco, fica pronta a primeira réplica, a do profeta Joel. Cinco peças são digitalizadas em 3D, com scanner
– 2011: Em 21 de novembro, recomeça a digitalização em 3D, dessa vez com com ajuda de um robô automotivo, dos 12 profetas, que têm entre 1,80 metro e 2m de altura

COMO FICOU? CÓPIA DAS ESCULTURAS
Só duas réplicas ficaram prontas

Os profetas de Congonhas são alvo de longa polêmica – uns acham que eles devem guardados em um museu, para evitar mais degradação, outros que devem continuar no adro da basílica até que sejam consumidos pelo tempo. Em 2011, foram feitas, sob chancela da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), cópias de segurança (em gesso, para  reserva técnica) e réplicas (para exposições etc.), de Jonas e Joel, consumindo quatro meses de trabalho para cada um. Em parceria com a empresa Comau do Brasil, que cedeu um robô, foi feito a digitalização em 3D das 12 esculturas. A expectativa, de acordo com a coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil, Patrícia Reis, é de que as cópias de segurança e réplicas dos 10 restantes sejam feitas como parte de atividades no futuro Memorial Congonhas Centro de Referência do Barroco e Estudo da Pedra, um misto de local de exposição e local para oficinas, é fruto da parceria entre Unesco no Brasil, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Prefeitura de Congonhas.

Fonte: JEM/por Gustavo Wernek

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