As investigações conduzidas pela delegada Bárbara Lomba, titular da 15ª Delegacia de Polícia Civil do Rio de Janeiro, concluíram que o estudante Rafael Bussamra, 26 anos, e Gabriel Henrique Ribeiro, 19 anos, cometeram homicídio doloso (quando o suspeito assume o risco de matar) pelo atropelamento de Rafael Mascarenhas, 18 anos, filho da atriz Cissa Guimarães, no dia 20 de julho. Bussamra dirigia o Siena e confessou ter atropelado Mascarenhas. Ribeiro conduzia o Honda Civic que estaria em um racha com o carro de Bussamra no momento em que o jovem foi atingido.
Segundo a polícia, ambos foram indiciados também por terem fugido do local do acidente, o túnel Acústico, que estava sem tráfego devido à interdição para manutenção do túnel Zuzu Angel e onde Mascarenhas andava de skate com amigos. Assim como alegado pelos envolvidos, o inquérito policial confirmou ligações para o Corpo de Bombeiros logo após o atropelamento. Para a delegada, este fato evidencia que os jovens não praticaram omissão de socorro.
No entanto, como o estado do jovem era visivelmente grave, os motoristas deveriam, segundo a delegada, ter permanecido no local e terem sido encaminhados até a delegacia. O inquérito concluiu que houve intenção de abandonar a área do acidente e de tentar ocultar os vestígios do crime. “Após o carro chegar na delegacia, verificamos que o veículo estava adulterado. Foi possível constatar que provas haviam sido suprimidas. Tanto que a pessoa que começou o conserto descreve as avarias dizendo que havia afundamento no pára-brisas que chegou até a danificar o painel do carro”, afirmou.
O motorista admitiu ter feito o retorno ilegal para comprar um lanche, mas testemunhas dizem que ele fazia um racha com o Honda Civic. A reconstituição do atropelamento mostrou que, com o impacto, Rafael foi arremessado a cerca de 50 m. O laudo apontou também que veículo guiado por Bussamra estava a uma velocidade aproximada de 100 km/h quando atingiu a vítima.
De acordo com a delegada Bárbara, o homicídio doloso é caracterizado porque indícios apontam que Bussamra e Ribeiro assumiram o risco de colocar vidas em risco. “Há evidências de alta velocidade na pista interditada para tráfego de veículos. Não há nem o que se falar em velocidade máxima permitida em uma pista interditada”, afirmou.
Conforme a delegada, a manobra realizada dentro do túnel Acústico é um dos fatos que evidenciam que os jovens sabiam da interdição do local. “O elemento mais importante é uma manobra em uma passagem de emergência que, em condições normais de trânsito, seria arriscadíssima e complicadíssima de ser feita. Tentamos reproduzir em condições de tráfego normal. Ou alguém sairia para ajudar o condutor, ou o carro teria que ser colocado na metade da pista para haver visibilidade”, afirmou a autora do inquérito.
A Polícia Civil constatou ainda que o carro dirigido por Bussamra havia cometido diversas infrações por limite de velocidade e por avançar sinal fechado. De acordo com a delegada, a imprudência foi determinada, pois os jovens teriam visto a vítima momentos antes do acidente, sem diminuir a velocidade.
“Eles declaram ter visto pessoas do outro lado do túnel quando passaram. Bussamra vai além. Diz que também viu a vítima e ainda assim não reduziu a velocidade. A vítima estava de costas para os carros em alta velocidade. Alegar que a vítima podia ter visto ou podia ter sentido a presença dos carros não é plausível”, disse Bárbara.
Corrupção
Rafael Bussamra e seu pai, Roberto Bussamra, foram indiciados por corrupção ativa. Para a polícia, eles cometeram o crime ao pagarem propina a dois policiais militares para que o motorista do Siena não fosse conduzido à delegacia. Os dois e Guilherme Bussamra, irmão de Rafael, também foram indiciados por fraude processual, por tentativa de esconder as provas do atropelamento. Não há indícios, porém, de que o irmão de Bussamra tenha participado do crime de corrupção.
As investigações concluíram que Rafael Bussamra e o Roberto Bussamra tiveram tempo suficiente para relatar uma eventual pressão dos policiais militares por propina. De acordo com Bárbara, eles não permaneceram o tempo todo com os policiais e poderiam ter ido a uma delegacia. As investigações mostram ainda que os dois tentaram apagar vestígios do atropelamento no Siena dirigido por Rafael.
“Uma pessoa que alega ter sido ameaçada e que, ainda assim, tenta desfazer provas. Não é normal pensarmos que essa pessoa não tenha tido tempo de ir a uma delegacia e delatar tudo aquilo”, disse a delegada.
Se o atropelador de Mascarenhas for condenado por todos os crimes, a pena pode passar de 30 anos de prisão. O inquérito será encaminhado hoje ao Ministério Público (MP) para que seja avaliado e encaminhado à Justiça.
PMs respondem por 3 crimes
A Auditoria da Justiça Militar do Rio aceitou a denúncia do MP contra o sargento Marcelo José Leal Martins e o cabo Marcelo de Souza Bigon, que teriam liberado o carro de Bussamra. Eles vão responder a processo por corrupção passiva, falsidade ideológica e descumprimento da missão. Ambos estão presos preventivamente.
De acordo com a denúncia, os PMs aceitaram, de Roberto Bussamra, promessa de recebimento de R$ 10 mil para deixar de preservar o local do atropelamento, prestar auxílio à vítima e conduzir Rafael à delegacia. Horas depois, segundo o MP, os policiais deixaram de cumprir missão, saindo do posto de patrulhamento para escoltar o carro do atropelador.
Pela manhã, ainda de acordo com a denúncia, os dois receberam de Roberto Bussamra R$ 1 mil, como parte de pagamento do que havia sido combinado. Por fim, os PMs apresentaram o registro de ocorrência com informação falsa, descrevendo a liberação do veículo de Rafael Bussamra sem a constatação de irregularidades.
Imagens de Bussamra em elevador
Segundo a delegada Bárbara, o horário das imagens do elevador do condomínio onde mora Bussamra contradiz o depoimento do atropelador. Este seria outro fato que a levou a concluir que o jovem estava ciente da interdição do túnel. Bussamra afirmou em depoimento ter deixado a Barra da Tijuca em direção à zona sul às 23h30. No entanto, as imagens mostram os jovens no elevador à 0h09.
“Tudo indica que já pudesse ter sido avistado indícios de interdição. Uma hora antes, já é colocada uma placa de sinalização indicando o fechamento da via”, afirmou. Bárbara apontou também evidências por meio de ligações telefônicas entre os jovens logo antes do atropelamento. (Com agências)
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